segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Entrevista- Aquiles Alencar Brayner



‘É hora de o Brasil pensar nos seus acervos digitais’

Por Mariana Filgueiras
mariana.filgueiras@oglobo.com.br

Ao tentar fazer uma anotação, Aquiles Alencar-Brayner, de 40 anos, apalpa o paletó, instintivamente, procura algo nos bolsos, mas logo ri do próprio gesto. Há tempos não carrega caneta. Saca então o telefone e, em instantes, escreve o lembrete. Entusiasta das possibilidades da informação digital, o curador do acervo eletrônico da British Library esteve no Brasil para participar do seminário “Ebooks e a democratização do acesso”, na 15ª Bienal do Livro. Antes de voltar para Londres, onde vive há 13 anos, e dar uma passadinha em Fortaleza para matar as saudades da família, o cearense teve uma reunião com o presidente da Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, a portas fechadas. Literalmente. Com a greve dos servidores do Ministério da Cultura, a biblioteca não abre desde 22 de agosto. Aquiles emprestará seu know how a projetos que vão ampliar o acesso ao conteúdo digital da instituição, o que inclui o empréstimo de leitores digitais (ereaders) e ebooks ao público. Entre um compromisso e outro no Rio, conversou com a Revista O GLOBO.


REVISTA O GLOBO: O que ficou acertado nesta reunião com Galeno Amorim?
AQUILES ALENCAR-BRAYNER: Estou ajudando a desenvolver o programa para ampliar o acesso ao acervo digital da Biblioteca Nacional, em comemoração aos 200 anos da instituição, agora em 2011. Galeno tem uma visão muito interessante sobre essa área digital. O que a gente quer fazer é ampliar o acesso ao material digitalizado que já existe na biblioteca e implementar o serviço de empréstimo de ebooks.
 
Qual será o primeiro passo?
A questão do armazenamento. É preciso ter um servidor potente que possa responder à demanda dos usuários. Se a gente pensar em liberar mais documentos, temos que pensar nessa estrutura antes.
 
O empréstimo de ebooks não tiraria leitores da biblioteca?
Fala-se muito da morte da biblioteca, que é possível buscar a informação que você quiser de qualquer lugar. Mas acho que hoje em dia a biblioteca deve ser, antes de tudo, uma prestadora de serviços. Ela tem de reunir a informação e oferecer um contexto onde esta informação possa circular. A biblioteca não é só um espaço físico, é um serviço. Que pode nem existir fisicamente.
 
Como é seu trabalho na British Library?
Eu já desenvolvia projetos digitais dentro do acervo latino (Aquiles entrou na BL em 2006, como curador do acervo latino-americano da instituição), quando fiz minha tese de doutorado sobre arquivos de páginas web. Abriram esta vaga de curador digital no ano passado, que até então não existia. Fiz o concurso interno e passei. E o trabalho é basicamente gerenciamento de projetos digitais. É pensar no usuário que a gente vai servir no futuro. A biblioteca é muito visionária neste sentido. Como o pesquisador vai acessar este conteúdo daqui a 20 anos? Já se fala hoje em dia na morte da World Wide Web, então temos que pensar que o futuro serão os aplicativos. E já estamos montando estes aplicativos (no mês passado, a BL lançou 45 mil clássicos em formato de aplicativo para iPad).

Esta tecnologia é viável no Brasil?
É uma tecnologia cara, sim, mas a gente conta com a expertise de colegas. A minha vinda aqui tem a ver com isso, também. Venho contribuir com a minha experiência de fora.

Não é precipitado discutir empréstimo de ebooks numa biblioteca que não tem ainda nem internet para o pesquisador?
Se a gente for pensar assim, ninguém tem estrutura para nada. Estrutura a gente cria. É preciso pensar agora, já. Os formatos mudam o tempo todo, os consumidores, no caso, os usuários, mudam as mentalidades. Se a gente não for atrás disso agora, vai ficar obsoleto, e aí, sim, vai ser o fim. Mas é claro que é preciso fornecer a estrutura básica que vai oferecer ao usuário esta conexão.

De que maneira a sua experiência à frente da curadoria do acervo latino-americano da BL pode ser aproveitada nesses projetos para o Brasil?
Basicamente, network. Quero convidar colegas de bibliotecas latino-americanas para colaborar. Um dos projetos que tenho com Galeno é fazer um catálogo integrado de acervos latino-americanos. Juntar as coleções e já disponibilizar tudo digitalizado. Difunde-se a ideia de um continente unido ao mesmo tempo em que possibilita a troca intercultural. Como faz a Europeana, por exemplo.

Você acredita que esse fôlego digital possa trazer mais usuários à BN?
Não necessariamente para o espaço físico da biblioteca, mas usuários do serviço, sim.

O acervo eletrônico pode ser uma solução para a falta de espaço das bibliotecas?
Ele gera outro problema de espaço, que é o espaço eletrônico. Para caber isso tudo são necessários servidores potentes. Você não põe um livro digital na estante, você mantém um sistema funcionando. Tem que fazer atualizações constantes, migrar formatos. Por isso, já é hora de o Brasil pensar nos seus acervos digitais.

Em que medida o acervo digital é mais democrático?
Ter acesso a um conteúdo onde quer que você esteja é democratização. Mas claro que esta democratização pode ser questionada na questão da conectividade. Quem tem acesso? A Inglaterra tem um plano de inclusão digital bem estruturado para os próximos anos. Aqui é preciso pensar, também, em como as pessoas vão acessar os documentos a longo prazo. A democratização se torna cada vez mais ampla, não só em acesso, mas em diálogo: cada vez mais pessoas publicam suas ideias na rede. A gente está dividindo mais conteúdo, a própria criação do Creative Commons responde ao nosso tempo.

Você é um entusiasta do Creative Commons (sistema de licenciamento mais livre e flexível dos direitos autorais)?
Completamente. Sobretudo em relação ao conteúdo de instituições públicas.
Disponivel em http://sergyovitro.blogspot.com/2011/09/entrevista-aquiles-alencar-brayner.html
acesso em 20/10/2011


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